Distúrbios do Sono: Seu Cérebro em Perigo!
Por Via Internet • 19 de janeiro de 2026
Por Via Internet • 19 de janeiro de 2026
Ao longo das minhas décadas de prática clínica e pesquisa em neurologia, vi poucas coisas impactarem tanto a saúde global de um paciente quanto a qualidade do seu repouso noturno. Tendo crescido aqui no Brasil, acompanhei como nossa rotina se tornou frenética, transformando o sono de uma prioridade biológica em um “luxo” dispensável. No entanto, afirmo categoricamente: o sono não é um período de inatividade cerebral.
Pelo contrário, é durante o sono que o cérebro trabalha intensamente. É o momento da “faxina” neural, onde consolidamos memórias, processamos emoções e removemos toxinas acumuladas durante o dia. Quando esse processo é interrompido por distúrbios do sono, o preço pago pelo nosso sistema nervoso é altíssimo. Não se trata apenas de sentir sono no dia seguinte; trata-se de um dano cumulativo à arquitetura cerebral.
Distúrbios do sono são um grupo de condições que afetam a capacidade de dormir bem de forma regular. Eles podem ser causados por problemas de saúde, estresse excessivo ou hábitos inadequados. No entanto, diferenciam-se de uma noite mal dormida ocasional pela sua cronicidade e pelo impacto severo na qualidade de vida.
Fale agora com um especialista e tire suas dúvidas imediatamente.
Existem mais de 80 tipos diferentes de distúrbios do sono classificados. Eles geralmente se manifestam de uma das seguintes formas:
Dificuldade em adormecer ou permanecer dormindo.
Problemas em manter um horário regular de sono.
Comportamentos incomuns durante o sono (como sonambulismo).
Sonolência excessiva durante o dia, mesmo após uma noite de sono aparente.
Em meu consultório, recebo pacientes com queixas variadas, mas três condições se destacam pela frequência e gravidade de seus impactos neurológicos e sistêmicos.
A mais conhecida, porém muitas vezes mal compreendida. A insônia não é apenas a dificuldade de pegar no sono. Ela inclui também acordar várias vezes durante a noite ou despertar muito cedo e não conseguir voltar a dormir. Quando crônica (ocorrendo pelo menos 3 vezes por semana durante 3 meses), ela mantém o cérebro em um estado de hiperalerta constante, impedindo o alcance dos estágios profundos e restauradores do sono.
Esta é, na minha visão de neurologista, uma das mais perigosas e subdiagnosticadas. A apneia ocorre quando os músculos da garganta relaxam intermitentemente e bloqueiam as vias aéreas durante o sono. A consequência imediata é a queda na oxigenação sanguínea.
O cérebro, percebendo a falta de oxigênio, desperta o corpo brevemente para reabrir a via aérea – frequentemente com um engasgo ou ronco alto. Esse ciclo pode se repetir centenas de vezes por noite. O resultado é um cérebro cronicamente privado de oxigênio e fragmentado em seu descanso, o que eleva drasticamente o risco de AVC (Acidente Vascular Cerebral), hipertensão e declínio cognitivo [1]. O ronco alto e constante nunca deve ser ignorado; é um grito de socorro das suas vias aéreas.
A SPI é um distúrbio neurológico caracterizado por uma vontade incontrolável de mover as pernas, geralmente devido a uma sensação desconfortável. Isso piora à noite, quando a pessoa está tentando relaxar, tornando o início do sono uma batalha diária.
É crucial saber quando procurar ajuda especializada. Preparei esta tabela para ajudar a diferenciar o cansaço normal de um potencial distúrbio:
| Característica | Cansaço Normal / Noite Ruim | Potencial Distúrbio do Sono |
| Frequência | Ocasional, ligado a eventos específicos (estresse, festa). | Frequente (várias vezes na semana) e persistente. |
| Recuperação | Melhora após uma ou duas noites de bom sono. | O cansaço persiste mesmo após períodos de descanso. |
| Impacto Diurno | Sonolência leve, gerenciável com café ou cochilo. | Sonolência excessiva, dificuldade de concentração, irritabilidade intensa, risco de acidentes. |
| Sintomas Físicos | Geralmente ausentes durante o sono. | Ronco alto, paradas respiratórias (observadas por parceiro), movimentos bruscos nas pernas. |
Como isso afeta seu cérebro a longo prazo? A privação crônica de sono ataca funções cognitivas superiores. A região do córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, tomada de decisão e controle de impulsos, é altamente sensível à falta de sono. É por isso que, quando estamos exaustos, tomamos decisões financeiras piores ou ficamos mais irritáveis.
Além disso, o sono profundo é essencial para a consolidação da memória. Sem ele, a capacidade de aprender novas informações é severamente prejudicada. Pesquisas recentes, inclusive, sugerem uma ligação preocupante entre distúrbios do sono na meia-idade e um risco aumentado de desenvolver demências, como a Doença de Alzheimer, na velhice, devido à falha na limpeza de proteínas tóxicas no cérebro que ocorre durante o sono [2].
Muitos pacientes me perguntam: “Doutor, mas como isso afeta minha vida prática e meu bolso?”. A resposta é: de todas as formas possíveis.
Produtividade e Economia: A sonolência excessiva reduz drasticamente a produtividade no trabalho, aumenta o erro humano e o risco de acidentes de trabalho, impactando diretamente sua carreira e a economia local.
Segurança no Trânsito: Dirigir com sono é tão perigoso quanto dirigir embriagado. Distúrbios não tratados como a apneia aumentam exponencialmente o risco de acidentes automobilísticos graves.
Saúde Mental e Relacionamentos: A irritabilidade e a labilidade emocional (mudanças bruscas de humor) causadas pela falta de sono corroem relacionamentos familiares e sociais, além de serem um fator de risco maior para depressão e ansiedade.
O diagnóstico preciso é o primeiro passo. Além da análise clínica detalhada no consultório, o exame padrão-ouro para muitos distúrbios do sono é a Polissonografia. Neste exame, o paciente dorme em um laboratório monitorado, onde registramos ondas cerebrais, níveis de oxigênio, frequência cardíaca e movimentos corporais.
O tratamento varia conforme o diagnóstico:
Para Apneia: O uso do CPAP (aparelho que envia pressão positiva contínua nas vias aéreas) é frequentemente o tratamento mais eficaz, mudando a vida dos pacientes ao restaurar a oxigenação noturna. Aparelhos intraorais e mudanças no estilo de vida (como perda de peso) também ajudam.
Para Insônia: A Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é a primeira linha de tratamento, focada em mudar pensamentos e comportamentos que perpetuam o problema. Medicamentos podem ser usados, mas sempre com cautela e supervisão neurológica estrita.
Independentemente do distúrbio, a base de qualquer tratamento é a higiene do sono. São práticas que preparam o cérebro para descansar:
Manter horários regulares para dormir e acordar, mesmo aos fins de semana.
Criar um ambiente propício: escuro, silencioso e fresco.
Evitar telas (celulares, TVs) pelo menos uma hora antes de dormir. A luz azul inibe a produção de melatonina.
Evitar refeições pesadas, cafeína e álcool próximo ao horário de dormir.
Cuidar do seu sono não é vaidade; é uma questão de saúde pública e neuroproteção. Se você suspeita de um distúrbio, procure um especialista. Seu cérebro agradecerá.
1. O ronco é normal?
Roncar ocasionalmente, especialmente se estiver resfriado ou muito cansado, pode ser comum. No entanto, o ronco alto, frequente e interrompido por pausas na respiração (engasgos) não é normal e é o principal sintoma da Apneia Obstrutiva do Sono. Deve ser investigado por um médico.
2. Posso tomar melatonina por conta própria para dormir melhor?
Como neurologista, não recomendo a automedicação, nem mesmo com suplementos. A melatonina é um hormônio e seu uso inadequado pode desregular ainda mais seu ciclo circadiano. Ela é eficaz para casos específicos, como jet lag ou distúrbios do ritmo, mas não é a solução universal para a insônia crônica e deve ser usada sob orientação.
3. O álcool ajuda a dormir?
Este é um mito perigoso. Embora o álcool possa ajudar a induzir o sono inicialmente (fazendo você “apagar” mais rápido), ele fragmenta gravemente a qualidade do sono na segunda metade da noite. Ele impede que você atinja os estágios de sono REM e profundo, essenciais para a restauração cerebral, resultando em um sono não reparador.
4. Quantas horas de sono eu realmente preciso?
A maioria dos adultos precisa de 7 a 9 horas de sono por noite para um funcionamento cognitivo ideal. No entanto, a qualidade é tão importante quanto a quantidade. Sete horas de sono profundo e contínuo são melhores do que nove horas de sono fragmentado.
5. Distúrbios do sono têm cura?
Muitos distúrbios do sono, como a apneia e a insônia, são altamente tratáveis e gerenciáveis. Com o diagnóstico correto e adesão ao tratamento (seja CPAP, terapia ou mudanças de estilo de vida), é possível recuperar a qualidade do sono e reverter muitos dos riscos à saúde associados à privação crônica.
Referências:
[1] American Academy of Sleep Medicine. “Obstructive Sleep Apnea.” (Informação factual sobre os riscos cardiovasculares da apneia).
[2] Associação Brasileira do Sono & Fiocruz. Estudos sobre a relação entre sono e saúde neurodegenerativa.